
Mesmo quem tem mais controle sobre os gastos, se refletir com calma vai
encontrar algo que comprou ou que paga normalmente e de que não usufrui.
Desde uma casa na praia, até um coçador de costas e as mensalidades da
academia, estes gastos, quando inúteis, acabam pesando nas contas sem
motivo e assim podem permanecer pela simples falta de atenção ou por
comodismo. O professor de finanças da Fundação Getúlio Vargas César
Caselani explica que muitas vezes as compras são feitas por impulso, sem
que a utilidade do produto seja considerada.
“As pessoas acabam tendo custos muito maiores do que os benefícios. Elas
deveriam avaliar o custo de oportunidade para ver que o dinheiro gasto
com algo que não é usado, poderia ter sido investido em outra
finalidade”, afirma. É por isso que vale a pena fazer uma pausa para
reflexão sobre os dez gastos com alto potencial de inutilidade descritos
abaixo. Eles podem servir como inspiração para alguns cortes, ou como
forma de prevenção sobre gastos que não trazem nada mais do que um
enorme arrependimento.
1. Linha de telefone fixo
Uns nunca ficam em casa, outros têm planos no celular que permitem falar
com números favoritos de graça e assim o telefone fixo fica ali,
desamparado, e quando toca é uma surpresa. Dados divulgados pela Anatel
mostram que cada vez mais pessoas estão usando a telefonia celular e
deixando de usar a telefonia fixa no Brasil. O número de linhas de
telefonia celular em uso dobrou nos últimos quatro anos, passando de 126
milhões em março de 2008 a 251 milhões em março deste ano. Nesse mesmo
período, o número de linhas fixas em uso diminuiu 13%, passou de 35
milhões para 30 milhões.
De acordo com a tabela de tarifas de telefonia fixa da
Anatel, o preço mínimo de uma assinatura residencial varia em torno de
30 reais. Somando os impostos, que mudam de acordo com o estado, pode-se
dizer que apenas para ter a linha telefônica ativa são gastos em média
40 reais mensais – desconsiderando o preço do novo plano de Acesso
Individual Classe Especial (Aice) que tem tarifas mínimas de 12 reais,
mas é válido apenas para consumidores de baixa renda. Se abandonar a
telefonia fixa ainda parece uma ideia muito moderna para você, uma boa
opção pode ser contratar os serviços de banda larga, telefonia móvel e
fixa, de uma mesma empresa, o que permite maior economia do que
opagamento dos planos separadamente.
2. Roupas
Um dos gastos sem utilidade mais comum não poderia deixar de fazer parte
desta lista. Apesar da obviedade, alguns dados sobre a tamanha falta de
uso das roupas podem ser impressionantes. Uma pesquisa feita pelo site
britânico My Celebrity Fashion, com 1.623 mulheres britânicas de 18 a 30
anos mostrou que 79% delas confessaram que já compraram alguma peça de
roupa sabendo que não iriam usá-la. Pior: 91% delas possuem pelo menos
uma peça de roupa que ainda está com a etiqueta e 25% dizem que com
certeza só usam 10% das roupas que possuem. Apenas 8% disseram usar
todas as roupas.
Ainda que a pesquisa tenha sido feita em Londres, é bem possível que
muitos brasileiros tenham os mesmos hábitos, e fazer uma reflexão
pessoal. Uma dica do presidente doInstituto Brasileiro de Finanças,
Perícias e Cálculos, Anísio Castelo Branco, para aqueles que não se
controlam na hora de comprar roupas, é que antes de finalizar a compra, o
consumidor avalie se aquele gasto é um investimento, ou um impulso. “Se
o comprador perceber que aquele item trará uma grande satisfação, pode
aumentar a autoestima e, portanto, pode trazer, inclusive, retornos
financeiros, vale a pena comprar. Porém, se houver dúvida quanto a isso,
vale pedir para a vendedora reservar a peça por um ou dois dias para
avaliar melhor se aquele item é essencial”, recomenda.
3. Compras coletivas
Quem nunca se sentiu seduzido com as impressionantes ofertas dos clubes
de compras? É comum que elas induzam ao seguinte pensamento: “Eu não
estou precisando de um porta-retrato eletrônico com capacidade para 1500
fotos e que funciona como despertador também, mas custa só 200 reais,
acho que vou comprar”. O publicitário Tácio Gimenez comprou em uma
dessas ofertas duas diárias em uma pousada de Maresias, com direito a um
acompanhante. Ele pagou quase 200 reais, mas a oferta expirou antes que
ele conseguisse usar o cupom.
“Eu tive que visitar minha família no interior em um final de semana,
depois minha namorada teve que trabalhar dois sábados seguidos. Eu
acabei gastando dinheiro à toa, mesmo não sendo uma pessoa que tem
dinheiro sobrando”. Ele conta que também comprou junto a oito amigos
cupons para um jogo de paint ball, mas eles não conseguiram marcar uma
data em comum para o jogo e perderam o prazo. Ao todo o desperdício foi
de 120 reais. Castelo Branco dá a dica: “Cuidado com as promoções. Elas
nos levam a gastar dinheiro que efetivamente nós não precisaríamos
gastar. Muita gente acaba gastando só porque é barato”. Ele explica que
estas promoções funcionam melhor para comprar que já se pretendia fazer.
Assim o prazo e a distância nâo serão problemas para usufruir da
compra.
4. Academia de ginástica
Maria Emília Garcia, relações públicas, fez um plano semestral em uma
academia há um mês e já se comprometeu com o pagamento de seis parcelas
de 130 reais. “Eu fiz o plano porque queria entrar em forma, mas não fui
nenhuma vez à academia porque não tenho tempo e às vezes fico muito
cansada”. Mesmo sendo um gasto saudável, se não usufruído, é outra
despesa que pesa no bolso sem motivos. Muitas academias possuem planos
reduzidos, que permitem aos matriculados frequentar a academia três dias
por semana e são mais baratos. Ou ainda oferecem a opção de o aluno
pagar apenas pela aula de que participa, sem a opção de usar os
equipamentos da academia. Antes de pagar por um pacote completo,
portanto, vale fazer uma avaliação da disponibilidade e da disposição
para frequentar a academia. Uma boa alternativa para quem não quer
abandonar as esperanças de conseguir frequentar a academia diariamente é
começar pagando um plano reduzido no início, e depois, se possível,
ampliar o plano.
5. Segundo carro
Para o professor da FGV, Cesar Caselani, o segundo carro estaria no topo
da lista sobre itens que os brasileiros compram e não usam. Segundo
ele, o primeiro carro é para muitos uma necessidade, mas o segundo, a
menos que as duas pessoas da família o utilizem muito, é dinheiro jogado
fora. “Um carro traz muitas despesas, com seguro, manutenção, gasolina,
imposto e a depreciação que ele sofre. Logo na venda, ele já perde
parte do valor”, diz Caselani. Ele acrescenta que se este segundo carro
for utilizado esporadicamente, o melhor que pode ser feito é utilizar um
táxi quando for necessário. Dessa forma, todo o dinheiro que seria
gasto no veículo poderia ser revertido para alguma aplicação financeira,
que com certeza traria mais retornos do que um automóvel que se
deprecia.
6. Gadgets
A sensação causada por um gadget pode ser comparada ao
sentimento de entrar em uma loja de objetos utilitários. No momento em
que você está lá dentro tudo parece extremamente inovador e útil, mas a
impressão causada já é esquecida minutos depois de sair da loja. Ainda
assim, os acessórios para banheiro, cozinha, limpeza e aparelhos
eletrônicos com funções mais do que criativas quase sempre levam a
melhor na hora que o consumidor tenta resistir à tentação. Alguns
exemplos dos gadgets mais inúteis foram revelados por uma pesquisa
realizada pela empresa de seguros de aparelhos eletrônicos Protect Your
Bubble com britânicos. Nem todos se aplicam aos brasileiros, mas o
resultado pode sugerir quais tipos de aparelhos têm potencial para ser
comprados e não usados.
Os mais inúteis, em ordem decrescente, são: vela elétrica, lixa elétrica
de unhas, tesoura guiada a laser, máquina de fazer pão, cortador de
ovos, máquina de cozinhar ovos, coçador de costas, removedor de bolinhas
de tecidos, kit de fondue USB, mini disk player, máquina de fazer
iogurte, massageador de costas, coqueteleira, faca elétrica, máquina de
água com gás, bronzeador de face artificial, máquina de fazer chá,
máquina de waffle, massageador de pés e aquecedor de toalhas. Cerca de
75% dos entrevistados afirmaram possuir ao menos um gadget que usam
pouco ou raramente. A pesquisa mostrou ainda que mais de 50% dos
entrevistados se arrependeram de ter comprado o gadget, porque assim que
eles o trouxeram para casa, rapidamente perceberam que não há uso para
eles. Conclusão: pense bem antes de entrar em uma loja de utilidades.
7. Aplicativos e games
Rafael Marques, jornalista, é viciado em games. Sua última
aquisição foi o aplicativo Garage Band, que permite ao usuário tocar
diversos instrumentos musicais. “Eu comprei o aplicativo para iPod, mas é
muito mais legal jogar no iPad”. Ele gastou 5 dólares e nunca mais usou
o aplicativo. Com a febre dos aplicativos e de alguns games, muitos
acabam atraídos pelos lançamentos, compram e depois de usar um vez ou
duas, acabam não mais usando. Para evitar a compra em um momento de
euforia, alguns aplicativos têm versões para teste gratuitas e alguns
podem ser testados. É uma boa dica para avaliar se a compra será
usufruída ou não. Se não houver jeito de fazer o teste, existem sites e
blogs que passam informações sobre o produto e também podem ajudar a
definir se a compra valerá a pena ou não.